Vaticano reúne Nobel e big techs para debater IA e paz
Vaticano reúne vencedores do Nobel, ex-chefes de Estado, pesquisadores e empresas de tecnologia para discutir os riscos da inteligência artificial e das armas nucleares.
Foto: @VaticanMedia
Encontro em Castel Gandolfo busca limites éticos para a inteligência artificial
Prêmios Nobel, ex-chefes de Estado, pesquisadores e representantes das principais empresas de tecnologia discutem como evitar que a IA amplie conflitos, ameaças nucleares e mecanismos de controle.
O Vaticano reuniu nesta semana mais de 200 participantes no Borgo Laudato si’, nos Jardins Pontifícios de Castel Gandolfo, para discutir os efeitos da inteligência artificial sobre a paz e a segurança internacional. Os trabalhos começaram na terça-feira (14) e seguem até esta quinta-feira (16), quando será apresentada uma declaração com princípios para orientar o desenvolvimento e a governança da tecnologia.
Participam da assembleia 30 vencedores do Prêmio Nobel, representantes de 30 países, antigos chefes de Estado e de governo, especialistas em inteligência artificial e integrantes de universidades e centros de pesquisa. Empresas como OpenAI, Google DeepMind e Anthropic também enviaram representantes.
O encontro ocorre em meio ao aumento das tensões entre países, à retomada das ameaças nucleares e ao avanço de sistemas capazes de influenciar decisões militares, políticas e econômicas. Para a Santa Sé, o debate sobre inteligência artificial não pode ser separado da proteção da dignidade humana.
Tecnologia muda o conceito de segurança
Na abertura dos trabalhos, o cardeal Silvano Maria Tomasi, presidente da Fundação Communis, alertou que as novas tecnologias estão transformando a própria ideia de segurança internacional. Segundo ele, a linguagem da dissuasão voltou a ocupar espaço nas relações entre as nações, enquanto os mecanismos de controle de armamentos se tornaram mais frágeis.
“A tecnologia nunca é moralmente neutra”, afirmou o cardeal, ao recordar um dos alertas apresentados pelo papa Leão XIV na encíclica Magnifica humanitas.
Tomasi também chamou a atenção para o risco de o poder tecnológico ser tratado como uma solução absoluta. Na avaliação do representante da Santa Sé, a humanidade precisa escolher entre utilizar a inovação para ampliar o controle sobre as pessoas ou colocá-la a serviço da fraternidade e do bem comum.
A encíclica de Leão XIV, publicada em maio, defende que a inteligência artificial deve permanecer subordinada às necessidades humanas. O documento alerta para formas de desumanização que podem surgir quando pessoas passam a ser reduzidas a dados, indicadores de eficiência e decisões automatizadas.
Risco de manipulação e novas desigualdades
O cardeal Ángel Fernández Artime, pro-prefeito do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, afirmou que o desafio central não está na existência da tecnologia, mas na finalidade atribuída a ela.
“O problema não é a tecnologia, mas a orientação”, declarou o cardeal.
Segundo Artime, sistemas desenvolvidos sem atenção aos direitos fundamentais podem favorecer a vigilância, a manipulação de informações e o aprofundamento das desigualdades. O alerta envolve tanto as ferramentas usadas por governos quanto as aplicações criadas por empresas privadas.
A discussão também alcança o emprego da inteligência artificial em conflitos armados. Sistemas autônomos, análise de dados militares e algoritmos empregados na seleção de alvos levantam dúvidas sobre responsabilidade, controle humano e respeito ao direito internacional.
Declaração de Roma será apresentada no Capitólio
O principal resultado da assembleia será a chamada Declaração de Roma para uma paz desarmada e desarmante na era da inteligência artificial. O documento será apresentado no Capitólio, em Roma, ao fim dos trabalhos.
A proposta é estabelecer princípios para uma governança internacional da IA baseada na cooperação, na dignidade da pessoa, no desenvolvimento integral e na prevenção de conflitos. O texto também deve abordar os riscos ligados às armas nucleares e à aplicação de sistemas automatizados no setor militar.
O cardeal Fabio Baggio, pro-prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, ressaltou que a paz não pode ser entendida apenas como ausência de guerra. Para ele, uma convivência pacífica exige justiça, confiança entre os povos, respeito às leis e proteção da dignidade de cada pessoa.
Universidades e empresas participam do debate
Além das empresas de inteligência artificial, a assembleia conta com representantes de instituições como Harvard, Oxford e Columbia. O grupo reúne pesquisadores de diferentes áreas para avaliar impactos políticos, jurídicos, sociais, econômicos e militares das novas tecnologias.
A presença conjunta de líderes religiosos, acadêmicos, antigos governantes, cientistas e empresas busca ampliar a responsabilidade sobre decisões que não ficam restritas ao setor tecnológico. Sistemas de IA já interferem na comunicação pública, no mercado de trabalho, na segurança, na educação e na maneira como governos administram informações.
Ao promover o encontro, o Vaticano dá continuidade aos apelos do papa Leão XIV por um “desarmamento tecnológico”. A expressão não significa rejeitar a inovação, mas impedir que o avanço técnico se transforme em instrumento de dominação, exclusão ou violência.
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